... PERMITE UMA CONTRA-DANÇA?

Não vai dar pra balançar o rabinho chamando atenção, porque o papo é cabeça, e de acordo com as parcas lições sobre evolucionismo, há muito perdemos o rabo. Não, não é conspiração contra este ou aquele fenômeno musical recente, dos inúmeros que surgem/desaparecem, é só um pouco de reflexão sobre o que está além deles. Outro dia estava numa praça animada por músicas de pagode, com letras ricas na espetacularização do sexo, e na coisificação da mulher, enquanto diversas meninas se apresentavam aos sorrisos e requebros. Dentre elas, duas figuras se destacaram aos meus olhos: mãe e filha. A mãe dançava a coreografia que a mandava subir e descer, virar de lado, levantar a perna, a bunda, e a sua pequena, de não mais que quatro anos, repetia os movimentos, serelepe e saltitante. O que pensar diante disso? Moralismos à parte, crescer tendo como único ou principal repertório amassar a latinha com a bunda, sendo a piriguete, a cadela, a perereca, a que da a patinha, está longe de ser o movimento de libertação sexual tão almejado pelas feministas, ou uma manifestação espontânea da cultura popular, como alguns querem nos fazer crer. “Mas as mulheres gostam”, diz o bem intencionado rapaz, se atendo à superfície da questão. Ora, somos educadas/os para gostar ou não das coisas, e a educação está na praça, está na dança daquela mãe, nas caixas de som daquele carro, na inspiração do letrista, no meu silêncio, na sua "ingenuidade", no tosco sistema político negligente e corrupto, enfim, no todo... Claro que o pagode baiano e o funk carioca não inventaram a sociedade violenta para com a mulher, pelo contrário, a sociedade violenta para com a mulher está se valendo destes ritmos, tão legítimos quanto contagiantes, para a manutenção da violência através da disseminação de estereótipos ligados à questão do corpo feminino, do sexo, ditando aquilo que a mulher deve ser e fazer. Continuamos caindo nas armadilhas do pensamento, da cultura, da economia, da política, e dificilmente somos capazes de expor algo que não esteja previamente determinado pelos nossos contextos existenciais. Ao que parece, há muito perdemos o rabo, mas ainda não sabemos fazer uso dos recentes e sofisticados recursos do nosso cérebro, para compreender e questionar a sociedade que nós mesmos criamos. Apenas dançamos a sua música.

Fonte: Anônimo


Comentários

Anônimo disse…
Impressionante , você escrever um texto desse tão interessante e não se identificar. Por que? queria lhe parabenizar.